quinta-feira, 8 de abril de 2010






quem ama de caquinhos

faz emenda

quem ama

de caquinhos faz mosaicos.






foto: Geison de A. Borges

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

foto:Geison de A.Borges


Claro que é perto da meia-noite que todos passeiam, mas era eu que estava lá, pela última vez.

E numa extremidade do quarto que ninguém via, abri a janela. Não via a grade.

É que lua assim tão declarada cobre o parapeito de evasão.

Água pingada e retorcida, sem copo, não coincidia com boca alguma além da minha.

O cinzeiro ainda estava lá, cobertor que me tomava toda de pó: sem sonho no travesseiro.

Há anos tento resolver o impasse do olho no chão do teto antes do desabamento.

Uma corda pendurava o banquete: "Longe de mim o sol!"

Puxei e inundação.
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domingo, 17 de janeiro de 2010

Petisco


Antes que me apresente, deixe-me assim.

Convalesci no entretanto com alguma pena de hora-extra, confundindo a mentira da saudade.

Péssimos antecedentes indicam o presente promissor das unhas roídas na cara talhada de santo, um primor.

Penso como um trator ecológico saltando as minhocas dentro das formigas.

O dia do índio no calendário me irrita, rasgo aquela merda comendo tapioca ou não?

Meu maior desejo é descobrir como não engolir meu próprio cuspe depois de ejetar saliva.

O menor é não lamentar porra nenhuma.

- Prejuízo é um tesouro, meus bens mais preciosos!

- Então pegue mais e lembre-se: "Um dia tudo isso será teu."

Mas..do que eu estava mesmo a falar? Lembrei! Meu nome é Onofre, tenho 54 anos e trabalho com recursos humanos há vinte e seis.

Meus amigos me chamam de Cofrinho, nunca entendi bem porquê.
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quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Frente fria





Li seus adendos numa dessas propagandas enganosas de lunetas vídeo-clipe.

Aninha: "Dei só um olhar e ele pensou que fosse eu".
Cristina: "Eles são tão estranhos, mamãe. Posso voltar pro papai?"

Bastiana: "Só porque eu gritei Lombardiiiiiiii na hora h, ele não me perdôou. Resolvi ligar na Globo."

Joana: "Quanto mais eu falava mais ele esquecia e acabei comprando um MP3."

Doralice: "Sei lá, o cara me deu uma soqueira no dia dos namorados e eu usei, pensei que era pra isso."

Cora: "Ultimamente desisti das passeatas gays e ando fazendo campanha só por eunucos inofensivos."

º
Encontraram-se numa comunidade de relacionamentos. Embora ainda não soubessem (nesse momento do texto estão todas trabalhando) tinham em comum a vocação: digitadoras.

Em Cristina começara a despertar na infância. No dia em que seu pai a levara pela primeira vez à praia e cobrira seu corpo todo de areia, deixando-lhe complacentemente a cabeça do lado de fora.

Bastiana era a mais velha do grupo, chegara até a fazer um curso de datilografia em 1983, fato que omitia cuidadosamente do chefe na repartição.

O caso de Doralice era o mais estranho. Desde que amputara o dedo médio fechando o porta-malas com sua mãe dentro, ficou obcecada por telemarketing. Após o bip na sua secretária ouvia-se sempre uma histérica gargalhada.

Meteram Cora num vestido-bombom rosa aos quinze anos e desde então ela passou a ver o mundo como um enorme bolo confeitado. Aos vinte anos, com a grana que herdara da madrinha contadora, abriu seu próprio negócio de lingerie.

Aninha era míope e tinha vergonha de usar óculos, o que sempre lhe abastecia de muitos tropeços em calçadas. Diziam seus colegas que ela tinha um anjo da guarda poderoso, ela acreditava e seguia completamente embevecida quando lhe confundiam com um sushi no ônibus lotado.

Joana fora criada num orfanato católico e sua melhor recordação eram os dias santos catalogados e o coro dos monges beneditinos ecoando aos domingos na sacristia.

No feriado do dia de finados receberam um convite por email do Cláudio para se cadastrarem no site, assim o fizeram e foi assim que as vi, de passagem.

Já pedi que me adicionem antes que bloqueiem minha senha da internet por atraso no pagamento da funerária.

Matarei a todas com pôr-do-sol na Tailândia.
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